Pioneirismo de Algumas Mulheres na John Deere (Parte 1)

quarta-feira, Dezembro 4, 2019

Encontrar mulheres em todas as esferas do agronegócio é uma realidade crescente. No campo, nos prestadores de serviços ou nas indústrias do setor, a voz feminina ganha novos contornos e elas conquistam espaço de maneira irreversível. O caminho para chegar até aqui, porém, não foi fácil para muitas delas. Tiveram de romper barreiras impostas pelos colegas homens e, algumas vezes, até mesmo na esfera familiar. Muitas inspiraram – e continuam inspirando – outras mulheres a acreditarem na importância dessa luta. Uma briga que valeu a pena ter comprado.

Algumas dessas pioneiras fazem parte da história da John Deere. A empresa pretende continuar esse percurso ao estabelecer como uma das metas de Diversidade & Inclusão que 23% dos cargos de lideranças sejam ocupados por mulheres até 2022. No Centro de Distribuição de Peças para América do Sul, em Campinas (SP),  inclusive, isso já é uma realidade. Na primeira parte, vamos contar a história de Maristela Centenaro e Cristine Ullmann. Acompanhe a seguir.

 

Rompendo barreiras desde a contratação

Maristela ingressou na empresa quando a John Deere possuía apenas 20% da SLC. Ela foi pioneira, mesmo que involuntariamente, sendo a primeira mulher grávida a entrar na SLC

 

O ano era 1985 e a John Deere só detinha 20% da SLC. Porém, observando o desempenho dos produtores de soja do Estado do Rio Grande do Sul, não era difícil concluir que fabricar colheitadeiras era um negócio e tanto. Foi o que motivou Maristela Centenaro a deixar seu emprego no antigo Banco Nacional para trabalhar no departamento financeiro da SLC. Dizer que aquele momento foi como um novo nascimento é quase um trocadilho do destino. Antes mesmo de começar a trabalhar, Maristela fez uma descoberta que mudaria a sua vida. Ela estava grávida, esperando seu primeiro filho.

Ficou feliz com a notícia, naturalmente. Mas a alegria de em breve se tornar mãe veio junto com uma preocupação (que

jamais passaria pela cabeça dela se fosse um homem): como ficaria seu novo emprego? Apreensiva, procurou o RH e explicou: “não vou poder trabalhar com vocês. Acabei de descobrir que estou grávida!” Não esperava a resposta que recebeu. “Se você for eficiente, isso não será um problema. Vai continuar sentodo domingodo nossa funcionária, sim.”

 

Foi um alívio para Maristela – e também um compromisso: ela sentia que precisava mostrar o máximo de eficiência e ter o mínimo de ausência. Não por si, mas por outras mulheres que passassem por ali.

"Era uma forma de abrir caminho para outras mulheres casadas e com filhos entrarem na empresa.” E assim Maristela já chegou sendo pioneira, mesmo que involuntariamente. Foi a primeira mulher grávida a entrar na SLC.

Ela observava com atenção tudo ao seu redor. Já era algo do seu perfil, mas um fator a fez redobrar a atenção. “Logo que eu cheguei me disseram: olha, tome cuidado, porque aqui as paredes têm ouvidos”, relembra. Era uma boa oportunidade para respeitar a anatomia e usar mais seus dois olhos para observar do que sua única boca para falar. Mas de tanto observar, viu que a coisa não era tão grave assim. Aliás, havia era muito para ser falado.

 

Maristela

 

E Maristela não ficava quieta. “Montamos um comitê para falar sobre melhorias diretamente com o diretor”, conta. “E eu sempre batia de frente, principalmente quando não gostava das respostas que ouvia.” Foi assim que ela foi aprendendo a lidar. Não é que as paredes tinham ouvido: era mais sobre o jeito de falar.

Logo viu que, se havia resistência contra ideias vindas de uma mulher entre tantos homens, ter apoio de colegas era de grande ajuda. “Sempre que tinha alguma coisa para resolver, eu levava colegas comigo.”

E assim foi conduzindo sua agenda, fosse para tratar de processos, fosse para tratar do ambiente de trabalho – como quando ela pleiteou a instalação de um sistema de ar-condicionado no escritório. “Ficávamos em cima daquela fábrica quente, não tinha ventilação. Imagina o calor que fazia ali!”, ri. Alguns dias – e discussões – depois, lá estavam os funcionários em um escritório climatizado, todo fresquinho.

 

Brigadista, sim, por que não?Maristela

“Maristela, você é louca”, disseram. Não que a ideia dela fosse muito normal, mas não custava tentar: ela queria fazer parte da brigada de incêndio da fábrica. Nem era tanto por ser apaixonada por lutar contra o fogo ou salvar vidas: a motivação dela era o simples fato de que não havia mulheres no grupo – e, pior, os homens não pareciam nada dispostos a permitir que isso ocorresse. “Não pode porque não pode, ué”, diziam.

 

Insistiu aqui, discutiu ali e acabou sendo aceita na brigada. Dali a alguns dias, lá estava ela em um treinamento que não era para qualquer um: eram corridas ao redor da fábrica, rastejar no túnel de fumaça, subir escadas, escalar janelas… Ao fim, Maristela sobreviveu. Mas sua maior vitória veio depois, quando (aos poucos, é verdade) mais mulheres foram fazendo o treinamento de brigadistas.

 

Pressa para achar soluções

Maristela

 

A brigada, as reuniões, o ar-condicionado e as inúmeras visitas à sala do chefe eram referentes a questões profissionais. “Eu tinha vindo de banco”, relembra. “Era um ambiente em que as mulheres já chegavam ao cargo de gerente e o ritmo era outro. Então eu queria resolver tudo rápido.” Esse jeito meio atropelado fazia alguns torcerem o nariz. “Se eu não conseguia resolver algo com uma pessoa, já subia para outra até conseguir o que eu queria”, afirma. “Eu até podia ser mandada embora, mas conseguia resolver as coisas”, ri.

Havia uma situação, porém, que ela não engolia – com o perdão do trocadilho: era o jantar que os funcionários (homens) organizavam – e sem convidar nenhuma funcionária mulher. “Eles chegavam no dia seguinte falando sobre a janta da noite anterior e a gente ficava: ‘Como assim? A gente nunca é convidada? Vai só o Clube do Bolinha?'”, indignava-se. Pior: embora muitos desses jantares fossem só por diversão entre os amigos, alguns eram profissionais, para recepcionar concessionários e clientes em visita à fábrica.

Já não era mais apenas um jantar. Era a presença em eventos relacionados aos clientes. “Eu era do financeiro! Ajudava a finalizar os procedimentos de compra”, argumenta. “Aquela diferenciação simplesmente não fazia sentido.” Maristela não queria deixar aquilo passar batido. Se naquela empresa as paredes tinham ouvido, ela tinha boca – e estava pronta para colocá-la no trombone.

 

Até dirigir carro causava insegurança

cris

 

Em 1989, Cristine Ullmann era secretária do então gerente Financeiro. A SLC estava em grande movimentação naquele período: a empresa estava prestes a passar por uma ampliação e inaugurar a planta que ficou conhecida como Fábrica 2. A ocasião merecia uma cerimônia à altura e a área de Marketing estava organizando um evento que duraria três dias, com diversas atividades e a presença da Rede de Concessionários, clientes, autoridades…

O que a SLC mais precisava naquele momento para colocar o evento de pé eram braços, e toda ajuda seria bem-vinda. O gerente Financeiro, então, convidou Cristine para dar uma força. E ela topou. Como Horizontina era uma cidadezinha pequena, Cristine viu-se cortando um dobrado para resolver algumas questões que foram surgindo. Precisava, por exemplo, de um serviço para alimentar aquele tanto de convidados – e só foi possível encontrar algo do tipo na capital do Estado, Porto Alegre.

AS

Para resolver esse e outros tantos pepinos, a funcionária precisava se locomover. Teria à disposição um motorista? Não havia profissionais o bastante para isso. O jeito foi ceder um carro para ela – o que só foi feito depois de muita hesitação.

Pura bobagem: Cristine já tinha carteira de motorista e dirigia o próprio carro. Mas era o finzinho dos anos 1980, e aquele era o interior do interior, onde muitos ainda tinham a visão de que a mulher nasceu para ter filhos e cuidar da família, não para pilotar um automóvel e ocupar cargos tradicionalmente masculinos. “Era outra época. As mulheres tinham que provar que tinham condições de dirigir o carro de um terceiro sem bater, que podiam tomar conta de um evento, saber se portar…”, enumera Cristine.

Depois de muitos quilômetros rodados e tantas idas e vindas pela cidade, lá estava o evento montadinho. Os tratores foram lançados e a cerimônia deu mais do que certo. “Fiquei muito feliz”, relembra. “E senti que tinha oportunidade de fazer coisas diferentes.” As tais coisas diferentes, mal sabia Cristine, estavam indo em sua direção.

 

Presença além da feira-livre

CRIS

 

Anualmente, a SLC expunha seus produtos em uma grande feira de equipamentos agrícolas realizada em Esteio, no Rio Grande do Sul: a Expointer. Lá iam concessionários, clientes, todos os grandes concorrentes, gente de outros países – enfim, era um acontecimento. E vários colegas (homens) participavam. Cristine e Maristela ficavam encucadas com uma coisa: notavam que os organizadores do estande da SLC contratavam recepcionistas (mulheres) terceirizadas especificamente para o evento. E elas (funcionárias) ficavam de fora.

Inconformadas, levantaram o assunto em uma reunião semanal com a equipe. Maristela foi na lata: “Por que a gente não pode ir à feira? Não entendo. A gente conversa com o concessionário, faz os procedimentos de venda. Todo mundo já foi, mas nenhuma mulher jamais participou!” Acabaram vencendo pelo cansaço. Dali a alguns dias, lá estavam as colegas no estande da SLC na Expointer.

Agrishow

Cristine e Maristela estavam longe de ocupar o lugar de algum homem na feira. Mas já era um começo: naquela primeira participação, foram colocadas para distribuir sacolas com brindes para quem passasse pelo estande. Era uma maneira de divulgar a marca, visto que os visitantes ficariam circulando pela feira o tempo inteiro, cruzando com pessoas que ainda não teriam visitado o estande da SLC.

“Nós, que éramos do Contas a Pagar, trabalhávamos felizes da vida nessa função, simplesmente por ter a oportunidade de ir a uma feira tão importante”, relembra Cristine. “Eram umas três mil sacolas por dia. À noite, estávamos cansadíssimas, mas a gente sabia que isso ia abrir oportunidade para outras mulheres que também queriam participar de feiras.”

Maristela conta que elas foram com tudo para conquistar seu espaço. “Éramos as primeiras a chegar e as últimas a sair. Tínhamos o maior cuidado com o que a gente fazia para mostrar que sabíamos fazer. Mesmo que fosse algo simples, fazíamos com amor.” Juntas, até criaram uma estratégia. Abordavam os visitantes que já tinham pego brinde de outras marcas, davam a sacola da SLC e colocavam as dos concorrentes dentro. “Dessa forma, para onde você olhasse, só tinha sacola nossa”, ri Cristine. E deu certo. Nos anos seguintes, Cristine e Maristela passaram a ser chamadas para as feiras – e nem precisavam mais fazer motim. E também não precisavam mais distribuir sacolas: passaram a cuidar de atividades mais estratégicas. Cristine logo migrou para o Marketing e passou a coordenar a organização do estande, do planejamento à montagem. Já Maristela logo estabeleceu contato com quantos gerentes de banco fosse possível e ajudava a concluir os negócios iniciados pelos vendedores. E, assim, mais e mais mulheres foram sendo convidadas para as feiras.

“Quando entrei na empresa, as mulheres trabalhavam como secretárias ou em cargos administrativos. Na indústria, não existia”, relembra Cristine

“Eu me sinto muito realizada, porque vejo que o mundo mudou, graças a Deus. Estamos tendo mais oportunidades. As mulheres estão sendo vistas de outra maneira, com todo esse potencial.”

cris

 

Maristela, que tanto pleiteou um espaço melhor para as mulheres, sabe o quanto isso custou. “Foi um caminho longo e demorado até começar a engrenar. Mas quando engrenou, abriu portas”, avalia. “Quando minha neta estiver trabalhando, eu quero que tenha um espaço ainda melhor. Ainda existe uma diferença, ainda existe um espaço a ser conquistado. As mulheres têm que se sentir capazes, buscar esses desafios e brigar por esse espaço.”

 

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